Inovação e Empreendedorismo

Empreender é uma tarefa repleta de dificuldades no Brasil. A falta de apoio e o excesso de burocracia do poder público, o desconhecimento sobre os caminhos e possibilidades do empreendedorismo, a limitada atenção dada pelas instituições financeiras e pelos investidores aos negócios de pequeno porte – tudo isso prejudica o esforço de pequenos empreendedores e afeta o seu desempenho.

Apesar disso, o potencial do empreendedorismo no Brasil é enorme para a economia brasileira. Além de compor quase 99% do universo empresarial do País, os pequenos negócios são responsáveis por mais da metade dos postos de trabalho no Brasil.

A sustentabilidade é uma oportunidade para mudar o panorama do empreendedorismo no Brasil e aproveitar o potencial dos pequenos negócios para a economia nacional. A chave para isso está naquilo que as empresas de menor porte têm mais facilidade de operacionalizar: a inovação – a busca por novas soluções para os desafios prementes da sustentabilidade.

Ao estimular a inovação de tecnologias e processos, o GVces busca contribuir para a sustentabilidade nas empresas, ao mesmo tempo em que procura apoiar empreendedores e fazer o elo entre os produtos, sistemas e serviços que desenvolvem e as empresas que buscam maior competitividade e uma atuação com base na sustentabilidade.

SUSTENTABILIDADE E INOVAÇÃO COMO DIFERENCIAIS DE COMPETITIVIDADE DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS NO EXTERIOR

Para o pequeno empreendedor, exportar é um desafio no Brasil. Mais do que as dificuldades operacionais internas, para muitos o maior obstáculo é a definição de uma estratégia consistente e articulada em mercados externos potenciais.

Existe um abismo entre o pequeno empreendedor brasileiro e o mercado internacional: a despeito de representarem mais de 44% do universo de empresas exportadoras do país, as exportações de micro e pequenas empresas (MPE) compõem apenas 0,9% do total das exportações brasileiras. No entanto, é exatamente este pequeno empreendedor que tem condições mais favoráveis para desenvolver os bens e serviços com atributos de inovação e sustentabilidade tão desejados por mercados consumidores na Europa e nos Estados Unidos.

Assim, existe um potencial ainda não aproveitado pelas MPE brasileiras para explorar o mercado internacional e ampliar os fluxos comerciais do Brasil com o resto do mundo. O projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global) vislumbra fomentar o aproveitamento desse potencial, apoiando o processo de internacionalização de pequenos empreendedores com soluções diferenciadas em inovação e sustentabilidade.

Oficina com as Âncoras

Fruto de parceria entre o GVces e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), o projeto ICV Global abriu em 2016 seu 2º ciclo de atividades, reunindo 30 MPE de todo o País para um processo de capacitação, orientação e apoio ao desenvolvimento de uma cultura de exportação alinhada à estratégia de negócio de cada organização.

Participar do ICV Global foi incrivelmente profissional. Muitas formações para executivos são teorias difíceis de ser aplicadas e longe da realidade empresarial. O esforço e o envolvimento da equipe do ICV Global, que trabalhou diretamente com a realidade de cada empresa, conseguiu transformar muitos dos nossos sonhos em pequenas ações, já com resultados de curto prazo e nos auxiliou a criar um planejamento estruturado para SONHAR GRANDE a longo prazo.

Luciane P. Fornari, Fornari Indústria, empresa participante do 2º ciclo de ICV Global

Em 2016, as MPE selecionadas participaram de oficinas de mentoring, com atividades de orientação e coformação oferecidas pelas equipes do GVces e da Apex-Brasil sobre temas da sustentabilidade, além do posicionamento de produtos e serviços com relação aos seus atributos inovadores e sustentáveis dentro de mercados externos considerados estratégicos para cada empresa.

Outra etapa de envolvimento foi a de aceleração de impacto, que consistiu em uma plataforma de aconselhamento, ajustada para atender às necessidades específicas dos empreendedores participantes de ICV Global. O propósito desta etapa é preparar as empresas para conversar com potenciais compradores estrangeiros.

Algumas das MPE participantes tiveram a oportunidade de realizar esse contato em novembro, quando a Apex-Brasil levou representantes dessas empresas para uma missão comercial na Colômbia. Além de conversarem com potenciais compradores, também visitaram instituições de pesquisa, incubadoras de negócios inovadores e empresas nas cidades de Bogotá e Medellín.

Em paralelo ao processo de capacitação de MPE, o projeto ICV Global também iniciou um trabalho de engajamento de grandes empresas na promoção de sustentabilidade ao longo de suas cadeias de valor, de forma a contribuir para a consolidação dessas empresas nos mercados internacionais. A etapa de engajamento de empresas-âncoras foi iniciada no final de 2016, com a realização de oficinas com a participação de MPE parceiras de duas grandes empresas – a Duratex e a Vicunha Têxtil. O propósito desta etapa é capacitar as MPE em temas de sustentabilidade e orientá-las nos caminhos para internacionalização de seus negócios.

O 2º ciclo de ICV Global se encerrará em 2017, com a continuidade das atividades de capacitação de MPE parceiras das empresas-âncora, com a realização de mais uma missão comercial internacional e o lançamento da publicação sobre os resultados deste ciclo de atividades do projeto.

Exportar não é uma tarefa fácil, pois a simples replicação do modelo de negócios local em outra realidade aumenta as chances de insucesso da empreitada. Desenvolver a cultura exportadora exige o comprometimento da liderança e engajamento de toda a equipe na empresa, além de um acompanhamento contínuo das melhorias do processo de gestão. O ICV Global busca justamente auxiliar a empresa a planejar sua entrada em mercados-alvo demandantes de atributos de sustentabilidade.

Ana Coelho, gestora do projeto ICV Global no GVces

A CONSTRUÇÃO DE UM ECOSSISTEMA DE INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE NO BRASIL

Os micros e pequenos empreendedores possuem características importantes que os distinguem do resto do universo empresarial no que diz respeito a inovação. Na luta por um espaço no mercado, muitas dessas empresas aproveitam sua estrutura menor e menos burocrática para promover a inovação desde o nascedouro, de forma inerente ao negócio. Isso explica o fato de as inovações de caráter disruptivo, que podem transformar setores econômicos inteiros, acontecerem em grande parte nas micro e pequenas empresas.

O contexto da sustentabilidade surge como uma grande oportunidade para as empresas de menor porte avançarem em soluções inovadoras para problemas novos e antigos da sociedade. No entanto, para que essas soluções sejam efetivas e gerem resultado, elas precisam encontrar um ambiente que permita a elas dar escala para esses produtos e serviços inovadores.

Para fortalecer esse ambiente e transformá-lo efetivamente em um ecossistema de inovação, o GVces e a revista Página22 se uniram em 2016 para a 2ª edição do Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE.

2ª edição do Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE

A partir de um extenso processo seletivo, conduzido pelo GVces com o apoio de um comitê seletor composto por especialistas, o Guia reuniu 11 empresas de micro e pequeno porte com capacidade de contribuir para a transição rumo a uma nova economia e de inspirar outros empreendedores nesse sentido.

Comitê Seletor do Guia
  • Ana Luiza Herzog, editora sênior da Revista Exame (Ed. Abril)
  • André P. de Carvalho, professor da FGV EAESP
  • Daniel Izzo, sócio e cofundador da Vox Capital
  • Gilson Spanemberg, gestor de projetos de sustentabilidade da Apex-Brasil
  • Luciana Hashiba, gestão estratégica de inovação da Natura
  • Marisa Gil, editora-executiva da Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios (Ed. Globo)
  • Paulo Bellotti, sócio e cofundador da MOV Investimentos
  • Rebeca Rocha, gerente da Ande no Brasil
  • Rodrigo Vieira da Cunha, fundador da agência Profile, sócio da agência digital Live AD e embaixador sênior do TEDx no Brasil
  • Sergio Wigberto Risola, CEO do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec)
  • Suênia Sousa, gerente do Centro Sebrae de Sustentabilidade
  • Wilson Nobre Filho, professor da FGV EAESP

O processo de avaliação das empresas se desenvolveu a partir de três pilares. O primeiro deles diz respeito aos aspectos inovadores presentes no modelo de negócio da empresa, seus produtos, serviços ou processos e a relação entre a sua inovação e os desafios da sustentabilidade – como gestão de recursos hídricos, resíduos, direitos humanos, diversidade, inclusão social, entre outros.

O segundo pilar é o da replicação e escalabilidade, que observa os impactos positivos ou negativos que a organização pode proporcionar à sociedade e a estratégia para ganho de escala para disseminar e replicar inovações no mercado a curto e a longo prazos. Por fim, o terceiro pilar é o da gestão, que usa como referencial as boas práticas que negócios de pequeno porte devem adotar e analisa os indicadores financeiros de cada empresa.

Dos 83 empreendimentos de pequeno porte que se inscreveram, 53 foram convidados a responder um questionário de avaliação desenvolvido pelo GVces que aborda temas como desempenho e transparência em sustentabilidade, inovação, desenvolvimento local e consumo sustentável, entre outros. Desse grupo, 23 foram selecionadas para receber visitas de campo dos pesquisadores do GVces.

Em novembro de 2016, o Guia apresentou os 11 casos selecionados pelo Comitê como micro e pequenas empresas protagonistas no tema de inovação para sustentabilidade, que se somam aos 11 casos selecionados na primeira edição do Guia, publicado no ano anterior. As empresas selecionadas em 2016 foram: Banco de Tecidos, Braerg, Faex, Fazenda Quinta da Estância, Fornari, Heide, Joy Street, Methanum, Pecsa, Sanhaçu e Vert.

Um ambiente diversificado – e, mais que isso, articulado e interdependente –, confere as condições ideais para fazer a inovação florescer. Nesse ecossistema, a força não está́ com o maior, nem com o mais poderoso que isoladamente se sobrepõe aos demais. A força está́, sim, no relacionamento entre as mais diferentes partes que compõem essa teia. Quanto mais coesa e diversa a rede, mais resiliente será́ o conjunto.

Editorial da ed. 105 da Revista Página22, com o 2º Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE

P22_ON: INOVAÇÃO NA CRIAÇÃO DE VALOR

Ficou para trás aquela visão de que a missão das grandes empresas é gerar bens e serviços e, acima de tudo, maximizar lucros. A partir dos anos 1980, as empresas começaram a perceber que precisavam pensar em responsabilidade social para com os públicos com quais se relacionavam por meio de suas atividades, os chamados stakeholders.

Hoje, para nos manter dentro da rosquinha, só isso não basta. Ser eficiente apenas… também não basta. A inovação para a sustentabilidade tem de estar presente em cada uma das cadeias de valor de uma empresa, incluindo, a montante, fornecedores, subfornecedores, produtores, prestadores de serviços, e, a jusante, distribuidores e clientes finais.

Com isso, substitui-se a visão antiga da linearidade pela circularidade, ou seja, troca-se a lógica do “pega-faz-descarta” pela do “pede emprestado-usa-devolve”, a qual considera os limites da capacidade de suporte do planeta.

“Inovação na Criação de Valor”, P22_ON (novembro/2016)

  • Oficina com empresas-âncora do projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global)
  • O projeto ICV Global é fruto de parceria do GVces com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil)
  • Oficina inaugural do segundo ciclo de ICV Global
  • O projeto ICV Global apoia a internacionalização de pequenas e médias empresas com atributos de sustentabilidade em seus produtos e serviços
  • A 2ª edição do Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE foi lançada pela Página22 e pelo GVces em novembro de 2016