Formação

Novos desafios exigem novos caminhos: não é possível construirmos uma sociedade mais justa, baseada em uma economia que considere os limites naturais do planeta e as necessidades humanas fundamentais, repetindo as fórmulas e as soluções que nos trouxeram a um cenário de desigualdade e esgotamento natural.

Poucos espaços são tão estratégicos para a agenda da sustentabilidade como o da formação, tanto dentro como fora das instituições tradicionais de ensino. Em face aos desafios complexos contemporâneos, não basta apenas replicar modelos antigos de formação, que preparam as pessoas para enfrentar problemas novos com ideias antiquadas – é preciso ir além, inovar, trazer novos contextos, perspectivas, atores e preocupações para o processo formativo.

Considerando o fato de fazer parte de uma das maiores e mais importantes instituições de ensino superior e profissional do Brasil – a Fundação Getulio Vargas –, o GVces tem como um objetivo importante de seu trabalho a busca por novos modelos para a formação de cidadãos e profissionais no contexto da sustentabilidade, preparados para encarar os novos desafios com disposição para inovar e para transformar positivamente a realidade.

DAS RELAÇÕES SOCIAIS À EQUIDADE DE GÊNERO

O modelo tradicional de formação resume o processo de aprendizado à simples transmissão e replicação de conteúdo – os alunos aprendem aquilo o professor passa. No entanto, este modelo vem sendo desafiado nas últimas décadas pela sua incapacidade de lidar com alguns problemas inerentes a ele próprio, como a simplificação da realidade e a subsequente fragmentação do processo de “aprendência”.

Há oito anos, o GVces foi instigado pela direção da FGV Eaesp a pensar na construção de uma disciplina de graduação que subvertesse essa lógica simplificadora e fragmentada. A partir disso, buscou alinhar este esforço dentro de um movimento mais amplo de inovação do modelo de ensino para a formação de novas lideranças preparadas para os desafios do presente e do futuro. Assim nasceu o FIS – Formação Integrada para a Sustentabilidade.

Desde 2010, o FIS desenvolve um projeto de formação que leva seus alunos a realizarem uma reflexão sobre si mesmos, o outro e o ambiente que os cerca, além de uma aproximação prática da realidade frente aos desafios da atualidade. O foco desta disciplina é buscar promover as condições necessárias para fazer emergir um sujeito mais consciente de si e de sua interdependência e complexidade, e mais ativo e autônomo na sua relação consigo próprio, com os outros e com a realidade. Tudo isso baseado numa proposta integradora, capaz de absorver a complexidade inerente à realidade a partir de diversas formas de acessar o conhecimento (seja pela razão formal, pela experiencial ou pela sensível).

Em sintonia com esta proposta de inovação na formação, as duas edições do FIS em 2016 buscaram superar barreiras tradicionais em dois ambientes importantes para a juventude: a universidade e o mercado de trabalho.

Cosseleção FIS 13

A turma “Íntegra”, do FIS 12 (1º semestre/2016), partiu do trabalho desenvolvido na edição anterior da disciplina (saiba mais) para refletir sobre o ambiente de formação superior, com foco nos relacionamentos humanos e sociais dentro da Fundação Getulio Vargas em São Paulo. O desafio do Projeto Referência foi despertar a comunidade da FGV para um novo paradigma de relação entre as pessoas dentro de suas escolas, a partir da produção de três vídeos curtos que tratassem sobre o relacionamento dos alunos com pelo menos três públicos da FGV e de seu entorno.

Mais do que tratar das relações dentro da universidade, este desafio trouxe à tona questões importantes sobre a qualidade dos relacionamentos que construímos nesse mundo corrido de hoje. Isso não é algo banal: a sinergia dos laços criados entre as pessoas afeta diretamente nossa qualidade de vida e nossas percepções sobre o mundo que nos rodeia.

No ambiente universitário, isto é ainda mais nítido: a competitividade entre os alunos, a falta de profundidade no relacionamento entre alunos-professores-instituição, as dificuldades de inserção social etc. Tudo isto pressiona bastante os atores, o que se reflete nas relações entre eles e em sua qualidade de vida.

Os vídeos desenvolvidos pelos alunos da turma Íntegra foram apresentados em junho e disponibilizados publicamente no canal do GVces no YouTube.

Já a turma do FIS 13, a Som@s (2º semestre/2016), trabalhou em seu Projeto Referência a questão de gênero no ambiente empresarial. O pano de fundo desta questão revela a sua pertinência: a despeito dos avanços significativos que as mulheres viveram no mercado de trabalho do Brasil e de boa parte do mundo nas últimas décadas, persistem alguns desafios importantes. No geral, a participação de mulheres e homens é desproporcional, com desigualdade inerente de oportunidades, remuneração, relevância e liderança entre os dois grupos, sem falar na cultura masculinizada baseada em estereótipos.

A Som@s foi desafiada a tratar deste tema de uma forma que facilitasse sua discussão e reflexão pelos diferentes atores dentro das empresas, através de sua “gamificação” – uma abordagem que utiliza elementos de design e narrativa de jogos para criar um processo prático de resolução de questões, de ensino-aprendizagem e engajamento, com as condições necessárias para que os participantes vivenciem o cumprimento de uma missão.

A partir deste desafio, a turma do FIS 13 desenvolveu o jogo Sala de Reunião, voltado para o ambiente empresarial, com o objetivo de revelar vieses inconscientes nas relações de gênero nas organizações e motivar para a ação. Após a apresentação final, o jogo Sala de Reunião já foi aplicado no Programa de Trainees da Ambev e em um comitê gerencial da TOTVS.

FORMAÇÃO EM SUSTENTABILIDADE PARA A ECONOMIA – E PARA A CIDADANIA

O trabalho de oito anos com o FIS permitiu ao GVces ter uma “bagagem” robusta e importante em formação dentro do ambiente universitário, voltada para experiências e formatos inovadores e instigantes para os alunos.

Por esta razão, em 2016, a FGV EAESP convidou o GVces para coordenar a linha de Sustentabilidade do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade. A partir das experiências do FIS, esta linha tem como missão criar condições para permitir a emergência de um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, com os outros e com o todo, e com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.

Da mesma forma que o FIS, a linha de Sustentabilidade do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade apresenta um percurso formativo inovador, que trabalha a conexão lógica e a integração entre os diversos temas da sustentabilidade, em vez de olhar cada tema como uma disciplina isolada. Esse esforço é feito ao longo de 18 meses a partir de dois projetos:

  • Projeto de Si Mesmo (PSM), um processo autorreflexivo e vivencial de natureza transdisciplinar, que visa a emergência do sujeito; e
  • Projeto Referência (PR), que lida com desafios reais em sustentabilidade a cada semestre.

A primeira turma da linha de Sustentabilidade foi aberta no 2º semestre de 2016, formada por profissionais de diversas áreas. Nessa etapa, os alunos desenvolveram seis projetos referência relacionados a questões como gênero, clima, educação e indicadores de desenvolvimento.

  • Grupo Cara Crachá: produção de material audiovisual direcionado a empresas e sociedade civil, visando estimular a reflexão e o posicionamento sobre inclusão de transexuais, travestis e transgêneros no ambiente de trabalho por meio da sistematização do aprendizado de grandes organizações;
  • Grupo UNO: proposição de uma carta aberta a empresas, apresentando elementos centrais para uma política pública de licença-família, com o objetivo de valorizar e ampliar o equilíbrio entre o exercício da maternidade e da paternidade, e promover a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho;
  • Grupo Invescientes: desenvolvimento de um simulador para sensibilizar analistas de investimentos, investidores e empresários para o potencial impacto da precificação de carbono em determinados indicadores de valoração de ativos;
  • Grupo Lé com Cré: diálogo multistakeholder para ampliar a conscientização sobre o conceito de justiça climática, preparando os atores envolvidos nos temas para ação em seus diferentes contextos;
  • Grupo Aproxima: modelo de diálogo multistakeholder com instituições de ensino médio para despertar a reflexão sobre educação para sustentabilidade como meio de transformação para criar ou aumentar a capacidade de os indivíduos tornarem-se agentes sociais protagonistas do futuro sustentável; e
  • Grupo Liberdade que Emerge: inclusão de novas variáveis ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), oferecendo subsídios mais abrangentes para auxiliar tomadores de decisão na promoção do desenvolvimento.

P22_ON: FORMAÇÃO

(…) por que o modelo predominante do ensino até hoje não passou por nenhuma quebra de paradigma desde que foi concebido lá atrás no período do Iluminismo? E isso foi no século XVIII.

A escola pública de massa foi inventada logo a seguir, no século XIX, para atender ao ambiente econômico da Revolução Industrial. O propósito era levar instrução ao futuro trabalhador das fábricas que já pipocavam pela Europa. Ou seja, a escola era (e de certo modo ainda é) a réplica de uma fábrica: horário para entrar e para sair ao som de uma sineta; uniforme obrigatório; pessoas separadas por “lotes”, conforme a idade, alojadas em compartimentos, sem conexão uns com os outros; uma autoridade no controle; disciplinas que não “dialogam” entre si, assim como os vários departamentos da velha fábrica.

Tantas revoluções ocorreram em tantas áreas nos últimos 50 anos, mas a maioria das escolas e universidades funciona, ainda hoje, com o mesmo formato de uma linha de produção industrial.

“Por que precisamos de uma Formação Integrada?”, matéria da P22_ON sobre Formação (março/2016)

  • A turma Som@s do FIS 13 trabalhou o tema da equidade de gênero dentro do ambiente corporativo
  • Macro imersão da turma Íntegra do FIS 12
  • Macro imersão da turma Íntegra do FIS 12
  • Macro imersão da turma Íntegra do FIS 12
  • Macro imersão da turma Íntegra do FIS 12
  • Macro imersão da turma Íntegra do FIS 12
  • Macro imersão da turma Íntegra do FIS 12
  • Cosseleção do FIS 13
  • Cosseleção do FIS 13
  • Em 2016, o FIS trabalhou temas como equidade de gênero e paradigmas de relações humanas e sociais
  • Os fisers produziram vídeos sobre os relacionamentos humanos dentro da FGV-SP e um jogo para estimular debate sobre equidade nas empresas