Finanças

Foto: Giovanna Faustini https://www.flickr.com/photos/giovannafaustini/5250626762/

Para viabilizar uma economia baseada em atividades com baixo impacto em emissões de carbono e que tenha potencial de gerar riqueza e distribuir renda, é fundamental que os recursos financeiros necessários para isso sejam devidamente destinados. Desse modo, não há como avançar rumo a uma economia verde e inclusiva sem que investidores e instituições financeiras de todo o mundo estejam engajados nesta tarefa.

Além dos recursos, outro ponto crucial para viabilizar essa nova economia é que seus preços reflitam efetivamente o capital natural, ou seja, tudo aquilo que a natureza contribui para a geração de determinado bem ou serviço. Hoje, a despeito de ser essencial para qualquer atividade produtiva, o capital natural não é considerado na contabilidade, o que gera distorções nos preços que incentivam a degradação dos recursos naturais em detrimento de sua conservação e uso sustentável.

Por essa razão, um dos campos de atuação mais destacado do GVces nos últimos anos tem sido o das finanças sustentáveis, por meio da geração e sistematização de conhecimento e o desenvolvimento de ferramentas para apoiar o poder público e as empresas na construção de uma economia verde e inclusiva no Brasil.

INFORMAÇÃO PÚBLICA SOBRE SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL PARA INVESTIDORES E STAKEHOLDERS

No passado, os investidores financeiros tinham uma única preocupação na hora de decidir o caminho de seu investimento no mercado: qual empresa garantiria mais retorno dentro de um determinado espaço de tempo. Assim, a referência que esses investidores observavam no processo de decisão sobre seus investimentos era basicamente a rentabilidade da empresa no mercado.

Hoje, para muitos investidores, a rentabilidade continua importante, mas não pode ser a única referência para sua decisão de investimento. Cada vez mais, eles buscam empresas que, ao mesmo tempo que geram dividendos ao investidor, impactos positivos à sociedade, que tenham potencial de catalisar a geração de riqueza no ambiente ao seu redor, o que acaba também impactando positivamente o seu próprio desempenho financeiro. Em todo o mundo, diversas iniciativas ligadas ao mercado financeiro destacam compromissos empresariais com o bem comum, como inclusão social, geração e distribuição de renda, e conservação do meio ambiente.

Na América Latina, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 foi uma dessas iniciativas pioneiras voltadas para criar um ambiente de investimento compatível com as demandas da sociedade e estimular a responsabilidade ética das empresas. Criado em 2005, o ISE é uma ferramenta para análise comparativa da performance das empresas listadas na Bolsa sob o aspecto da sustentabilidade corporativa, baseada em eficiência econômica, equilíbrio ambiental, justiça social e governança corporativa, pautado sempre pela transparência com relação aos diferentes stakeholders do mercado financeiro.

Parceiro técnico da B3 no desenvolvimento da metodologia do ISE, todos os anos o GVces acompanha o processo de seleção das empresas com ações na Bolsa para composição das carteiras de ações do Índice. Assim, ao longo de 2016, a equipe do GVces coordenou a revisão pública do questionário de seleção do ISE, com a participação ativa de representantes de empresas, especialistas, investidores e outros stakeholders do mercado financeiro e da sustentabilidade empresarial.

A partir do questionário revisado, o GVces e a B3 realizaram a seleção para a 12ª carteira do ISE, que foi apresentada em novembro de 2016. A nova carteira reúne 38 ações de 34 companhias presentes na Bolsa, representando 15 setores econômicos e somando R$ 1,31 trilhão em valor de mercado (o equivalente a 52,14% do total do valor das companhias com ações negociadas na B3 em 22/11/2016).

A carteira 2017 do ISE marcou também o início da divulgação pública das respostas do questionário como pré-requisito para as empresas participarem do Índice. A divulgação das respostas era opcional às empresas da carteira do ISE desde 2013, mas, considerando a transparência como um aspecto importante da sustentabilidade dentro das empresas, foi proposto que a divulgação pública se tornasse um critério eliminatório no processo seletivo de empresas para o Índice. Durante o processo de consulta pública do questionário de 2016, não houve objeções a esta proposta, que foi incorporada de imediato ao processo de seleção para a carteira de 2017.

Compreendendo a importância dessa nova característica do processo, ao final de 2016, uma nova ferramenta de visualização de respostas das empresas foi disponibilizada no site do ISE. Por meio desta ferramenta, o usuário pode visualizar, a cada pergunta do questionário, todas as alternativas assinaladas por todas as empresas da carteira, tornando mais fácil comparar as respostas de cada uma delas.

Ainda no tema de sustentabilidade empresarial e divulgação pública de informações, outra iniciativa do GVces é uma parceria iniciada em 2007 com a revista Exame para a realização do Guia Exame de Sustentabilidade. O Guia é publicado desde 2000, e o papel do GVces nesta parceria é o desenvolvimento e revisão do método atual de análise e seleção das empresas. Este processo compreende um levantamento sobre os compromissos, a governança corporativa e a transparência das companhias brasileiras, com foco no seu desempenho sob aspectos econômico-financeiros, sociais e ambientais.

Em 2016, 190 empresas responderam ao questionário do Guia Exame de Sustentabilidade, composto por 140 perguntas. Deste grupo, 69 organizações foram selecionadas como as melhores pela redação da Exame e organizadas em 19 setores, com destaque para as melhores de cada um deles.

Além do destaque para a empresa do ano, foram também eleitas empresas-destaque em dez temas-chave da sustentabilidade empresarial: direitos humanos, ética e transparência, gestão da água, gestão da biodiversidade, gestão de fornecedores, gestão de resíduos, governança da sustentabilidade, mudanças climáticas (inclui gestão de energia), relação com comunidade, e relação com clientes. Também foi destacada a melhor pequena e média empresa entre as demais empresas desse porte.

RETORNO SOBRE INVESTIMENTO PARA SUSTENTABILIDADE

Introduzir aspectos de sustentabilidade nas práticas corporativas é uma questão que impõe desafios aos processos tradicionais de tomada de decisão nas empresas, marcado por preferências estáveis e fixas em um curto prazo. Neste contexto, as ações alinhadas aos princípios da sustentabilidade podem assumir um papel estratégico para os projetos de investimento, tornando as variáveis socioambientais relevantes para seu desempenho. No entanto, uma dificuldade frequente para gestores é conseguir mensurar os aspectos socioambientais aos quais os projetos de investimento estão sujeitos, de forma a incorporá-los nas análises de viabilidade. Assim, ter informações sobre o retorno dos investimentos em sustentabilidade para a liderança corporativa por meio de dados e análises comparáveis aos de decisões de investimentos nas demais áreas da empresa é crucial na disseminação e internalização da sustentabilidade nas empresas.

Observa-se uma tendência entre as áreas de sustentabilidade das empresas em analisar financeiramente seus projetos socioambientais utilizando as técnicas de orçamento de capital comumente utilizadas pelos gestores de investimento. Com isso, buscam demonstrar a seus financiadores que projetos de sustentabilidade adicionam valor real à empresa, utilizam a linguagem de negócios e se aproximam das equipes financeiras.

A conexão entre desempenho financeiro e sustentabilidade implica não apenas compreender que as empresas utilizam e dependem do ambiente externo como base para seus negócios, que mudanças no meio ambiente e no arcabouço social afetam diretamente seu desempenho, mas também que as organizações que incorporam variáveis socioambientais em suas análises podem gerenciar e reduzir sua exposição a riscos, além de alavancar novas possibilidades de negócio.

Nos últimos anos, diversas iniciativas corporativas buscam avançar na incorporação de padrões de sustentabilidade por parte das empresas. Uma dessas é a Emerging Markets Multinationals Network for Sustainability (EMM), rede de 250 líderes de empresas multinacionais sediadas ou com operação em economias emergentes, com apoio do governo da Alemanha.

No contexto desta iniciativa, o GVces e a GIZ (agência alemã de cooperação internacional) se uniram em 2015 para desenvolver um estudo sobre o retorno econômico-financeiro de projetos de sustentabilidade no Brasil – o ROI Sustentabilidade (retorno sobre investimento).

Publicado no final de 2016, o estudo Retorno Econômico de Projetos de Sustentabilidade – Redefinindo o valor dos investimentos de multinacionais no Brasil apresentou uma análise econômico-financeira de 11 projetos de sustentabilidade em sete empresas instaladas no Brasil.

Os casos analisados demonstraram a importância da mensuração do retorno financeiro de projetos de sustentabilidade como forma de auxiliar o processo de tomada de decisão, evidenciando que as iniciativas de sustentabilidade vão muito além do plano ético: elas trouxeram, de fato, ganhos financeiros tangíveis para as empresas e podem representar um diferencial competitivo.

CAMINHOS PARA O FINANCIAMENTO DA ECONOMIA VERDE NO BRASIL

Enquanto financiador, o setor financeiro tem importante papel na transição para uma economia verde e inclusiva. As instituições financeiras possuem grande capacidade de influência sobre o comportamento do setor privado, principalmente na forma como seus investimentos são feitos e a destinação destes recursos.

Nos últimos anos, este setor vem ampliando sua atuação no campo da inovação, do baixo carbono e da geração de empregos verdes no Brasil e no mundo. Mas o potencial de ação das instituições financeiras está muito acima do realizado hoje.

Para apoiar investidores e instituições financeiras nesta tarefa, desde 2014 a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e o GVces desenvolvem uma série de estudos, no contexto da iniciativa Inquiry on the Design of a Sustainable Financial System. Trata-se de uma pesquisa liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) sobre fatores, políticas públicas e inovações capazes de acelerar e ampliar a destinação de recursos financeiros para iniciativas que propiciem uma transição mais rápida para uma economia verde e inclusiva.

Em 2016, três estudos foram desenvolvidos a partir da parceria entre GVces e Febraban. Primeiro, a publicação Edificações Sustentáveis e Eficiência Energética, que explora o potencial de incorporação de novas fontes de geração de energia elétrica e de tecnologias de eficiência energética na construção civil brasileira no contexto dos compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris. A atuação das instituições financeiras no financiamento de construções sustentáveis e de projetos de geração distribuída por meio da geração solar fotovoltaica tem o potencial de fortalecer o desenvolvimento da economia verde no Brasil e reduzir as emissões de carbono do País.

Já o segundo estudo, Financiamento da Recomposição Florestal no Brasil, analisa o compromisso assumido pelo governo federal de restaurar e recuperar 12 milhões de hectares de floresta até 2030 como parte da contribuição nacionalmente determinada (NDC, sigla em inglês) do Brasil para o Acordo de Paris. O volume de recursos necessário para a recuperação florestal não é desprezível e depende, além da dimensão do passivo a ser restaurado, de fatores como o método de plantio adotado pelo produtor e as regulações estabelecidas para cada região. Soluções para viabilizar o desenvolvimento desta agenda passam pela utilização de modelos de financiamento que sejam adequados à natureza desta atividade.

Por fim, o estudo Riscos e Oportunidades Associados ao Capital Natural para o Setor Financeiro enfoca as operações financeiras em setores de uso intensivo de capital natural, com o objetivo de identificar tendências, avanços e desafios para o controle do desmatamento nas cadeias produtivas da soja, pecuária, madeira e óleo de palma, visando conciliar o fortalecimento da agropecuária com critérios de responsabilidade socioambiental.