Clima

De acordo com as três principais organizações científicas que monitoram o clima global – as norte-americanas Nasa e Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa, sigla em inglês) e a britânica MetOffice – o ano de 2016 foi o que apresentou a mais alta temperatura média desde que os registros começaram a ser feitos, no começo da segunda metade do século XIX.

Este não foi um “ponto fora da curva”. Nos últimos três anos, tivemos os três recordes de temperatura média em quase 150 anos. A maior parte do aumento da temperatura do planeta desde a Revolução Industrial aconteceu nas últimas três décadas, sendo que 16 dos 17 anos mais quentes já registrados ocorreram no século XXI.

Estes dados evidenciam a gravidade da mudança do clima: com o aumento da temperatura do planeta, decorrente da concentração crescente de gases de efeito estufa na atmosfera, os padrões climáticos sofrerão modificações que podem intensificar a ocorrência de eventos extremos, como secas prolongadas e fortes tempestades.

Para o GVces, o tema da mudança do clima é central para que possamos efetivamente construir uma economia verde, que promova um desenvolvimento efetivamente sustentável. Por isso, uma parte importante de sua agenda de trabalho está voltada para este tema, com a geração e sistematização de conhecimento, o desenvolvimento de novas ferramentas de gestão e propostas de políticas públicas, além da articulação dos diferentes atores da sociedade em prol da ação climática.

ESTUDOS E EXPERIÊNCIAS EM PRECIFICAÇÃO DE CARBONO

Os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris abriram um novo panorama para os esforços do poder público e das empresas para redução das emissões de gases de efeito estufa do país. Com a definição de uma meta de redução a partir de 2020, o governo federal deverá revisitar o marco legal que orienta as ações climáticas brasileiras desde 2009, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). Esta revisão deve contemplar não apenas objetivos e ações, mas também a forma como essas ações poderão ser implementadas na próxima década para viabilizar o sucesso desses objetivos.

Nesse contexto, um tema que ganha relevância no debate sobre clima no Brasil é a utilização de instrumentos econômicos para “precificar o carbono”, o que facilitaria a redução de emissões por parte dos agentes econômicos, como tributação e sistema de comércio de emissões (cap and trade). No entanto, as empresas brasileiras em geral ainda sofrem com a falta de informação sobre esses instrumentos, particularmente sobre sistema cap and trade, e como seu negócio pode ser impactado pela implementação de tal medida no futuro.

Cap and trade é um modelo bastante explorado ao redor do mundo, utilizado no mercado europeu de emissões (EU ETS, sigla em inglês) e em mercados regionais na China. Este sistema estabelece um limite de emissões que é revertido em permissões que podem ser distribuídas e/ou vendidas para as empresas reguladas, as quais podem negociar entre si.

Desde 2013, o GVces promove uma simulação deste tipo de mercado de carbono, o Sistema de Comércio de Emissões (SCE), com o objetivo de engajar e capacitar as empresas brasileiras sobre a operação e a participação em um sistema de comércio de emissões no País, preparando-as para possíveis regulações que venham a ser implementadas nos próximos anos em matéria de precificação de carbono via mercado.

Com a participação de 30 empresas de diferentes setores da economia brasileira, a Simulação conseguiu cobrir em 2016 cerca de 60,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e), o que representa aproximadamente 6% das emissões nacionais de gases de efeito estufa (dados de 2014), sem considerar as emissões oriundas de mudança no uso do solo. Os dados utilizados na Simulação são reais, abrangendo emissões de Escopo 1 (operação direta) das empresas participantes, registradas por meio do Programa Brasileiro GHG Protocol.

Em 2016, o SCE limitou as emissões do Escopo 1 em aproximadamente 51 milhões de tCO2e (cap global), o que representou uma redução de 14% das emissões do total do grupo (com relação aos dados de 2013). Todas as transações de permissão ocorrem na plataforma de negociação do Instituto BVRio e são efetuadas com recurso financeiro fictício (EPCents) com paridade ao real.

Além da operação da Simulação, em 2016 o GVces e as empresas participantes sistematizaram a experiência com o SCE em uma publicação especial com aprendizados e reflexões sobre sistema de comércio de emissões a partir da perspectiva empresarial. Além dos aprendizados, a publicação também traz propostas para ajudar o poder público no debate sobre precificação de carbono no Brasil.

Outro resultado importante do trabalho do GVces e as empresas no SCE em 2016 foi o desenvolvimento das Diretrizes Empresariais para Precificação Interna de Carbono, uma ferramenta importante para ajudar as organizações a inserir a questão climática dentro do planejamento estratégico empresarial.

Por meio da precificação interna, as empresas podem avaliar os riscos e as oportunidades associados a precificação mandatória de emissões, ter subsídios para definir suas estratégias de mitigação de emissões, e identificar e mensurar suas externalidades ambientais.

As Diretrizes visam apoiar as empresas no processo inicial de precificação, ajudando-as na definição dos objetivos e aplicação de diferentes abordagens para precificar o carbono dentro das operações da empresa.

CONSTRUÇÃO DE UMA PLATAFORMA DE CONHECIMENTO EM ADAPTAÇÃO PARA O BRASIL

Em maio de 2016, o governo federal apresentou o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, documento que constitui a base para a coordenação e o direcionamento dos esforços no Brasil para redução de riscos, diminuição de vulnerabilidades e fortalecimento da resiliência dos sistemas naturais e humanos no contexto das alterações climáticas globais.

No entanto, apesar da existência desta base para a ação, poucos atores se dedicam hoje à implementação e ao monitoramento de medidas de adaptação no Brasil, por conta de dificuldades como o acesso a informações aplicáveis, a multiplicidade de atores relevantes e o horizonte temporal envolvido.

Para enfrentar o desafio da informação e do conhecimento sobre adaptação no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, o GVces e o International Institute for Environment Development (IIED) juntaram esforços para desenvolver, com o apoio do Newton Fund via Conselho Britânico, uma plataforma de conhecimento em adaptação que sistematize e disponibilize informações já existentes nas áreas temáticas prioritárias para a agenda brasileira de adaptação. Outro objetivo da iniciativa é conectar os atores que vêm produzindo e utilizando conhecimento em adaptação. Iniciado em 2016, o projeto AdaptaClima conta com a participação ativa do GVces no apoio ao debate e à troca de informações e experiências entre atores brasileiros e britânicos no tema de adaptação.

A Plataforma vai contribuir diretamente para o 1º objetivo, transversal, do PNA, que prevê entre suas metas uma “plataforma online de gestão do conhecimento em adaptação criada e disponível à sociedade”. Além disso, o Plano aponta como fundamental a atuação e investimento dos diferentes atores para sua efetiva implementação: empresas, organizações da sociedade civil e governos locais. Para tanto, será fundamental superar o entrave do acesso à informação e ao conhecimento e a harmonização dos esforços empreendidos em cada território.

Diante desses desafios, a fim de alcançar seus objetivos, a Plataforma será composta por três eixos: plataforma web, ações de comunicação e engajamento e estrutura de governança. Em 2016 a plataforma web foi desenhada a partir das necessidades e experiências dos atores relevantes e influentes na agenda no Brasil e dos aprendizados compartilhados por atores no Reino Unido. Além disso os dois outros eixos começaram a ser trabalhados.

O desenvolvimento da Plataforma está sendo feito de maneira participativa, com o envolvimento de mais de 80 participantes, entre atores-chave e colaboradores no Brasil e atores-referência no Reino Unido, com a intenção de agregar iniciativas e demandas, contemplar as distintas visões e evitar duplicação de esforços. Isso foi feito ao longo de 2016 com a realização de workshops nos dois países, além de entrevistas com atores-chave e atores-referência para sistematizar experiências e identificar conteúdos para a futura plataforma.

P22_ON: ADAPTAÇÃO À MUDANÇA DO CLIMA

Para fazer a adaptação avançar, medidas de infraestrutura certamente são fundamentais, mas sozinhas não fazem verão: devem vir acompanhadas de evolução em outras áreas, como informação, conhecimento, desenvolvimento gerencial, fortalecimento de instituições e políticas públicas, desafios que destacaremos mais abaixo.
Informação de qualidade é uma das ferramentas mais importantes da adaptação. Por estar relacionado ao futuro, o tema lida com a imprecisão, motivo pelo qual as decisões precisam ser muito bem embasadas para não haver arrependimentos depois (no regrets). Assim, diante das incertezas, é preciso tomar uma decisão hoje em relação à qual não há dúvidas de que será benéfica no futuro, seja qual for o cenário que se concretizar.

“Adaptação pode tornar o país mais resiliente aos históricos problemas sociais e de infraestrutura”, na edição da P22_ON sobre Adaptação (maio/2016)

INVESTIMENTOS EM ENERGIAS RENOVÁVEIS NA AMÉRICA LATINA

A energia elétrica é elemento central da atividade industrial e crucial para o desenvolvimento de um país. No contexto da mudança do clima, que exige a redução intensa das emissões de gases de efeito estufa, precisa-se avançar rumo à eficiência energética e à adoção de energias renováveis para assegurar as condições mais adequadas de produtividade e competitividade do país.

Ações de eficiência energética e o uso de fontes renováveis de energia elétrica trazem benefícios notáveis, como o aumento da segurança energética, a redução da dependência de combustíveis fósseis e da importação de energia, a redução dos níveis de carbono, entre outros. Em escala global, apesar de um crescimento expressivo na geração de energia a partir de fontes renováveis, os combustíveis fósseis ainda são predominantes, inclusive para a geração de eletricidade.

Neste contexto, o Brasil tem uma posição de relevância em relação ao potencial de instalação para geração de energia a partir de fontes renováveis.

Foto: GOVBA https://www.flickr.com/photos/agecombahia/6162418359/

Considerando a relevância deste tema para o Brasil e a América Latina, o GVces e a Konrad Adenauer Stiftung (KAS) uniram esforços em 2016 e desenvolveram o estudo Panorama de Energias Renováveis: Setor Industrial e América Latina, que apresenta um panorama geral sobre o consumo de energia de fontes renováveis no Brasil e em alguns países latino-americanos, como Chile, Colômbia, México e Peru.

Essa publicação expõe elementos para fomentar o uso de energia renovável no setor industrial brasileiro, tanto da perspectiva de políticas públicas quanto de mecanismos de financiamento para projetos dessa natureza, além de trazer uma análise comparada com experiências regionais, abordando as características de cada país em relação ao uso de renováveis, os marcos legais, entre outros pontos.

  • O projeto AdaptaClima visa criar uma plataforma para sistematizar e disponibilizar informações e materiais sobre adaptação à mudança do clima no Brasil
  • O GVces é parceiro do Ministério do Meio Ambiente, do Conselho Britânico e do Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED) no projeto AdaptaClima
  • Lançamento do ciclo e ferramenta para elaboração de estratégia de adaptação para organizações da sociedade civil
  • O Sistema de Comércio de Emissões (SCE) é uma simulação pioneira promovida pelo GVces que permite às empresas saber como funciona um mercado "cap-and-trade" de comércio de emissões