Cadeias de Valor

Podemos dizer que a economia contemporânea é composta por um verdadeiro ecossistema de atores, que possuem relações complexas de dependência e sinergia cruciais para sua sobrevivência no mercado. Essa complexidade é facilmente ilustrada: qualquer produto (de uma simples fruta até o celular mais moderno) que chega às mãos do consumidor final carrega consigo componentes de diferentes fontes, indispensáveis para a sua realização.

Isso significa que a existência e o funcionamento da economia moderna dependem diretamente da capacidade dos diferentes atores dialogarem entre si. No contexto da sustentabilidade, a necessidade de diálogo é ainda mais latente, já que esses atores precisam alinhar seus modos de operar com as restrições da capacidade de suporte da natureza, decorrentes da finitude dos recursos naturais, e com as necessidades sociais prementes, como geração de renda e emprego e combate à pobreza.

A cadeia de valor é o espaço fundamental para que esse alinhamento aconteça. A busca pelo desenvolvimento sustentável passa por cadeias de valor inovadoras, que incentivem uma perspectiva integrada sobre os impactos econômicos e sociais de seus produtos e serviços, e que facilitem a inclusão social.

IMPACTOS AO LONGO DO CICLO DE VIDA DO PRODUTO

Qualquer produto que consumimos – seja bem, seja serviço – é resultado de um processo produtivo que percorre diferentes etapas sob o controle de diferentes atores. Um automóvel, por exemplo, é produzido por uma montadora a partir de peças manufaturadas por diversos fornecedores ao redor do mundo que, por sua vez, elaboram esses itens a partir de matérias-primas básicas, como petróleo, minério de ferro e água.

Assim, quando o produto chega às mãos do consumidor final, carrega diversos impactos gerados ao longo de sua cadeia de valor, e esses impactos continuam ocorrendo durante toda a sua vida útil até o descarte final de seus resquícios – quando o produto deixa de cumprir sua função.

Considerando o contexto ambiental crítico e as demandas da sociedade pela conservação dos recursos naturais e pelo uso mais eficiente dos mesmos, os atores econômicos precisam cada vez mais avançar no mapeamento e gestão de seus impactos para além dos limites operacionais, abrangendo também os potenciais impactos associados a um dado produto ao longo do seu ciclo de vida.

Essa necessidade resultou na criação de métodos como a Avaliação de Ciclo de Vida, que permite identificar e quantificar os potenciais impactos ambientais ao longo do ciclo de vida de um produto – desde sua primeira interação com o meio natural (como na extração de matérias-primas), passando por todos os processos e atividades, até quando o produto não puder mais exercer sua função, chegando no fim de vida. Ter noção disso ajuda tomadores de decisão na busca pela minimização destes impactos e evoluir para a chamada gestão do ciclo de vida.

A Iniciativa Empresarial do GVces Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) tem como objetivo trazer o pensamento de ciclo de vida para as empresas brasileiras, capacitando-as a ter uma visão completa e abrangente de todos os elos da cadeia produtiva, envolvendo fornecedores (primários, secundários e até outros distantes de suas operações), clientes e usuários na busca pela redução dos impactos ambientais de seus produtos. Criada em 2015, a CiViA busca promover o desenvolvimento da ACV no Brasil, auxiliando as empresas a compreenderem os métodos e ferramentas existentes, assim como na disseminação dos conceitos da ACV dentro de suas organizações e fora delas, por meio da comunicação estratégica.

Oficina 3 do CiVia – Encerramento do Ciclo 2016

Em 2016, a CiViA se dedicou a um recorte específico da ACV, focado nas categorias de impacto ambientais associadas a mudança do clima e uso de água (esta, no contexto da agenda integrada das Iniciativas Empresariais do GVces). Para entender na prática como estas categorias se relacionam com as empresas, a equipe do GVces orientou as organizações no desenvolvimento de projetos de pegada de carbono e pegada hídrica de alguns de seus produtos.

Ao longo do ano, as empresas membros da CiViA receberam capacitação em pegada de carbono e pegada hídrica e participaram de oficinas para acompanhar o andamento dos projetos e para promover o engajamento de seus fornecedores no processo.

No final do ano, as empresas apresentaram os resultados dos 14 projetos de pegada de carbono e pegada hídrica desenvolvidas em parceria com a equipe técnica da CiViA para produtos e serviços como: distribuição de energia elétrica, milho, torneira de mesa, picanha maturada, etanol hidratado e calça jeans.

Além do trabalho de capacitação com a iniciativa privada, a CiViA também investiu no desenvolvimento de conhecimento científico sobre aplicação de ACV nas empresas em 2016. A equipe do GVces participou do V Congresso Brasileiro de Gestão do Ciclo de Vida (CBGCV), no qual foram apresentados quatro artigos, sendo que um deles (sobre comunicação e ACV) foi premiado durante o evento e outro foi escrito em parceria com uma empresa membro da CiViA (Lojas Renner) sobre os resultados de seu estudo de pegada de carbono da calça jeans.

FORNECEDORES ALINHADOS COM PRÁTICAS DE SUSTENTABILIDADE

Como o Pensamento de Ciclo de Vida destaca, para abordar os impactos ambientais de um produto, precisamos ir além dos limites da operação de uma empresa – é fundamental que analisar toda a cadeia de valor que alimenta e suporta esse produto, desde a matéria-prima até o consumo final.

Isso significa que, para obter um produto com baixo impacto ambiental efetivamente, todos os elos dessa cadeia precisam estar alinhados em torno de valores e práticas sustentáveis, do fornecedor da matéria-prima ao vendedor final do produto, passando por todas as etapas no processo produtivo e de distribuição.

Desde 2012, a Iniciativa Empresarial do GVces Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV) tem como objetivo apoiar o relacionamento entre grandes empresas e pequenas e médias organizações presentes em suas cadeias de valor, no sentido de promover o diálogo entre esses atores. O foco da Iniciativa é apoiar o desenvolvimento de fornecedores de menor porte por parte das grandes empresas, levando em conta o potencial desse relacionamento na promoção da sustentabilidade junto ao universo empresarial brasileiro. Isso porque as grandes empresas brasileiras não representam mais do que 0,15% do total de empresas do País. A esmagadora maioria desse universo é composta por micros, pequenas e médias empresas, que frequentemente acabam servindo como importantes fornecedoras de produtos e serviços para as grandes corporações.

No ano passado, a ISCV deu continuidade a um trabalho estratégico que vem sendo desenvolvido desde o ciclo 2013 da Iniciativa: o desenvolvimento de ferramentas e estratégias para apoiar as grandes empresas na gestão de fornecedores voltada para a sustentabilidade. Assim, no ciclo 2016, as empresas membros da ISCV e o GVces avançaram na construção de um protocolo para elaboração de uma análise de materialidade na cadeia de fornecedores. O objetivo foi de apresentar orientações sobre como estender a análise de materialidade frequentemente realizada no âmbito corporativo para além de seu negócio.

Essa extensão permite à empresa identificar temas relevantes ao longo da cadeia, interpretando e utilizando os resultados da análise na revisão de seus processos de compra e gestão de fornecedores.

Ao longo de três encontros do grupo de trabalho (GT) sobre Gestão de Fornecedores de ISCV em 2016, a equipe do GVces e representantes das empresas membros da Iniciativa discutiram as bases e os elementos do protocolo de análise de materialidade na cadeia. Uma primeira versão de estrutura para este protocolo foi apresentada em outubro para validação dos participantes.

2º GT de Fornecedores

Além disso, ISCV também avançou em 2016 na implementação de projetos piloto de aplicação do protocolo de matriz de risco, elaborado pelo GVces durante o ciclo 2015 da Iniciativa, com três empresas membros. Para a equipe do GVces, a realização desses projetos foi importante para integrar os setores de compras e suprimentos ao debate sobre gestão de fornecedores voltada para a sustentabilidade, ampliando o alcance das ferramentas desenvolvidas para esse fim dentro das empresas membros que implementaram os projetos-piloto.

SUSTENTABILIDADE E INCLUSÃO PARA AGRICULTORES FAMILIARES

As projeções de crescimento e distribuição demográfica neste século são contundentes: da mesma forma que os números absolutos da população mundial deverão subir nas próximas décadas, o contingente populacional vivendo nas grandes cidades do planeta deverá aumentar consideravelmente. Segundo as Nações Unidas, até 2050 cerca de 70% da população mundial viverá em cidades com mais de 10 milhões de pessoas.

O contraste demográfico entre as cidades superpopulosas e o campo esvaziado é uma realidade que tende a se aprofundar nos próximos anos, representando um sério desafio para o abastecimento da população urbana e para a subsistência da cadeia de alimentos voltada para esses consumidores.

Por exemplo, a megalópole de São Paulo, com 12 milhões de habitantes, depende de uma rede de atores para abastecer cerca de 900 supermercados e hipermercados e mais de 1,7 mil pequenos estabelecimentos comerciais, sem falar na alimentação cotidiana dessa massa de pessoas.

Essa rede de atores é composta principalmente por agricultores familiares e empreendimentos de pequeno porte, como cooperativas, que representam quase 85% do total de estabelecimentos agropecuários do Brasil. No entanto, esses atores já enfrentam desafios sérios a sua operação e podem ser forçados a encarar problemas ainda mais graves no futuro, ameaçando a viabilidade do seu negócio e, consequentemente, o abastecimento de frutas, verduras, legumes e hortaliças dos lares paulistanos.

Para garantir o abastecimento de alimentos para as grandes cidades nas próximas décadas, de maneira a enfrentar a insegurança alimentar e promover um desenvolvimento mais sustentável para o Brasil, precisamos olhar para essa cadeia com mais atenção e cuidado, com o objetivo de fortalecer e valorizar esses atores. Inspirados por esse desafio, o GVces se uniu em 2015 ao Citi, com patrocínio da Citi Foundation, para criar o projeto Bota na Mesa, que propõe a mobilização da cadeia de alimentos nos grandes centros urbanos, promovendo a articulação de uma rede que favoreça a inclusão de agricultores familiares, o comércio justo, a conservação ambiental e a segurança alimentar e nutricional, promovendo assim um novo olhar sobre a cadeia de produção e comercialização de alimentos pela agricultura familiar.

Em seu primeiro ciclo de atividades, concluído em 2016, o projeto concentrou sua atuação com pequenos produtores rurais localizados na Grande São Paulo e regiões do entorno. Uma frente de trabalho importante foi a realização de oficinas de coformação e acompanhamento a fim de aprimorar as práticas de gestão e relacionamento de dez organizações de agricultores familiares, com o objetivo de apoiar sua organização e fortalecer e ampliar seu acesso a canais de comercialização.

O projeto também atuou junto a representantes de um grupo varejista comprometido em aprimorar suas práticas (neste ciclo, o grupo St. Marché) e dos diferentes canais mapeados, construindo um conjunto de propostas de relacionamento e recomendações que facilitem a interação entre os elos da cadeia. Por fim, outro foco de atuação do projeto Bota na Mesa foi a mobilização da cadeia produtiva, criando referências para a atuação dos diferentes atores envolvidos e apoiando a avaliação e desenvolvimento de políticas públicas no setor.

Além das oficinas de coformação, dos encontros de integração e das atividades com especialistas e com representantes do Grupo St. Marché, a equipe do GVces apoiou também o desenvolvimento e a implementação de pilotos desenhados a partir de planos de ação para nove cooperativas e associações participantes do projeto. Nos pilotos, as organizações realizaram reuniões com representantes de novos mercados potenciais para seus produtos.

Os resultados do programa Bota na Mesa reforçam o papel de pequenas organizações na produção de alimentos e no desenvolvimento de grandes cidades, além de comprovar a força do diálogo e da aproximação entre atores na promoção de cadeias de valor mais justas e sustentáveis.

Priscilla Cortezze, superintendente de assuntos corporativos e sustentabilidade do Citi Brasil

  • Oficina de encerramento do ciclo 2016 da Iniciativa Ciclo de Vida Aplicado (CiViA)
  • Oficina da CiViA
  • Oficina da CiViA
  • Capacitação da CiViA em pegada de carbono e pegada hídrica
  • Capacitação da CiViA em pegada de carbono e pegada hídrica
  • Encontro do projeto Bota na Mesa
  • Encontro do projeto Bota na Mesa
  • Seminário com especialistas promovido pelo projeto Bota na Mesa
  • Seminário com especialistas promovido pelo projeto Bota na Mesa
  • Seminário com especialistas promovido pelo projeto Bota na Mesa